Por onde começar a aproveitar a vida? A divertir-me à grande? Por onde começar aquele tipo de aventura que só se vê na televisão?
Fiz o que qualquer tipo normal faria. Apanhei um táxi.
O carro era velho, muito velho. Mais velho do que o condutor, o Dragão Vermelho. Enquanto vagueava pela zona antiga de Lisboa, rangia por todos os lados e fazia sons que apenas me lembravam os de um moribundo prestes a dar um novo sentido à definição Passar Desta para Melhor.
- "Acha que ele se aguenta?"-pergunto eu
-"Ele quem?" responde-me o taxista, um autêntico animal em forma humana.
-" Esta maravilha"- digo eu afagando o tabelier do carro
"Não a afagues."- diz-me o Dragão Vermelho- "Nada de carícias."
"Desculpa"-disse eu
À medida que passamos por uma zona mais iluminada reparo nas cicatrizes que ele tem no sobrolho e nas suas orelhas deformadas.
-"És um lutador de boxe?"- pergunto-lhe
-"Quando eu era puto,"-diz-me o Dragão Vermelho- "o meu pai costumava prender uma tábua de madeira à parede e obrigar-me a bater nela noventa e oito vezes com cada mão antes de ir dormir."
-"Noventa e oito vezes?"
-" Se tivessem sido cem, a lição nunca teria sido aprendida"
-"Pois, acho que compreendo."
-"Já em tempos lutei com "O puto" Luís Fílipe."
-"Nunca ouvi falar dele"
-"Nunca tiveste nos fuzileiros"
-"Isso é verdade"-respondo eu
-"Eu sabia que era verdade quando o disse"- disse o Dragão Vermelho- "Não preciso da tua confirmação. Eu fui criado pelo fogo."
-"O quê?"
-"Nada"- responde-me o Dragão Vermelho
Após umas horas de viagem paramos numa bomba de gasolina, onde o Dragão Vermelho enche o depósito e compra dois bolos de arroz. Odeio bolos de arroz. Gosto de palmiers recheados.
-"Não és um desses vegans pois não?"-pergunta-me ele
-"Um quê?"
-"Só porque estes bolos têm, creio eu, produtos químicos"
-" Não há problema"- respondo eu
-" Ah. És um desses..."-diz-me ele
-"Um desses quê?"
-"Nada, nada, está tudo bem querido, está tudo mesmo, mesmo bem. Eu estou bem, tu estás bem, está tudo bem."
-"Não faço ideia do que estás a falar"
-"Com que então és do tipo de pessoa que não-faz-ideia. Nada de muito incomum, agora que penso nisso."
-"Hey, acaba com isso, é de loucos!"
-"Sabes o que é que é de loucos? Entrar num ringue com "O Puto" Luís Filipe!
Silêncio.
-"O meu pai não tinha uma tábua para dar murros sabes? Ele tentou fazer-me crescer de outras maneiras."- digo-lhe eu.
-"Engraçado. Não me lembro de te ter incitado a comparar as nossas infâncias. Aliás, não há nada a comparar. Eu fui criado pelo fogo."
-"Porque raio estás sempre a dizer isso?"
-"A constante repetição leva à memorização"
Caminho pela rua, sozinho. Por esta altura já deveria ter encontrado algo. Em todas as esquinas vejo uma sombra tua. Esta memória não é dele, é minha. Tenho a certeza que é minha.
Estranho.
Começo a correr, mas não me sinto a mover mais rápido. Isso já é mais normal. Qualquer visitante de sonhos com algumas viagens no seu curriculum sabe que não vale a pena fazer movimentos nem decisões bruscas. O melhor a fazer-se é sempre relaxar, deixar-nos levar.
Respiro fundo.
Um mar de luzes aparece no horizonte de ruas escuras. O som de vozes começa a ecoar no espaço estreito. Um vago cheiro a perfume começa a fazer-se sentir no meio de um mar de odores indistintos.
Na minha cabeça, uma palavra forma-se distintamente.
Prostitutas.
Hora de acabar. Carrego no botão que sempre tive na minha mão direita. Estou de volta a minha casa. Retiro o Visualizador de Sonhos da minha cabeça, limpo o meu suor.
Este Pedro é sem dúvida um tipo estranho. Não foi o sonho convencional a que estamos habituados a ver numa viagenzita depois do jantar. Na dúvida, guardo-o na minha lista de favoritos. Pode ser que volte a visitar-lhe a linda cabecinha em breve, quando não tiver nada que fazer.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
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